Manuel Bandeira – Poeta, Crítico, Professor e Tradutor

“Estou farto do lirismo comedido, do lirismo bem comportado.

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente: protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário: o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas.

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais.

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção.

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis. Estou farto deste lirismo namorador. Político. Raquítico. Sifilítico. De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. De resto não é lirismo. Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante. exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.Quero antes o lirismo dos loucos. O lirismo dos bêbados. O lirismo difícil e pungentes dos bêbados. O lirismo dos clowns de Shakespeare. Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.

Manuel Bandeira“50 [Cinquenta] poemas escolhidos pelo autor” – página 17,  Ministério da Educação e Cultura, Serviço de Documentação, 1955 – 86 páginas


Vídeo “O Habitante de Pasárgada”, sobre o poeta Manuel Bandeira. O documentário faz parte do DVD “Encontro Marcado com o cinema de Fernando Sabino e David Neves”


manuel-bandeira-poeta

Fonte das Citações: Wikiquote

Fontes biográficas: Wikiwand


OBRAS

Poemas

  • Desencanto

– Eu faço versos como quem chora, De desalento… de desencanto… Fecha o meu livro, se por agora, Não tens motivo nenhum de pranto). – “Eu faço versos como quem morre.”- (“Meus poemas preferidos”, página 35).

  • Andorinha

-Andorinha lá fora está dizendo: Passei o dia à toa, à toa! Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste! Passei a vida à toa, à toa…”- (Idem. página 57).

  • Arte de amar

– Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor.Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus – ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não”.- (Ibidem, página 91).

Meus Poemas Preferidos”, Editora Tecnoprint S.A. (Ediouro Grupo Coquetel), Rio de Janeiro.

  • A mata

-Que saberá a mata? Que pedirá a mata? Pedirá água? Mas a água despenhou-se há pouco, fustigando-a, escorraçando-a, saciando-a como aos alarves.”

Manuel Bandeira (3º da esquerda para direita em pé), Alceu Amoroso Lima (5ª posição) e Dom Hélder Câmara (7ª) e sentados (da esquerda para direita), Lourenço Filho, Roquette-Pinto e Gustavo Capanema Rio de Janeiro, 1936
Manuel Bandeira (3º da esquerda para direita em pé), Alceu Amoroso Lima (5ª posição) e Dom Hélder Câmara (7ª) e sentados (da esquerda para direita), Lourenço Filho, Roquette-Pinto e Gustavo Capanema
Rio de Janeiro, 1936

Poemas traduzidos

  • “Meus Poemas Preferidos”, Editora Tecnoprint S.A. (Ediouro Grupo Coquetel), Rio de Janeiro.
  • Tríade

(Adelaide Crapsey)

– “São três. Coisas silenciosas: A neve que cai… a hora antes da alva…a boca de alguém que acabou de morrer”.(Idem, página 122)

  • Tua nudez

(Juan Ramón Jiménez)

– “A rosa:Tua nudez feita graça.A fonte:Tua nudez feita água.A estrela:Tua nudez feita alma”. (Idem, página 126)


O Poeta Do Castelo – 1959 – Versos de Manuel Bandeira, lidos pelo poeta, acompanham e transfiguram os gestos banais de sua rotina em seu pequeno apartamento no centro do Rio, a modéstia do seu lar, a solidão, o encontro provocado por um telefonema, o passeio matinal pelas ruas de seu bairro …


Versos de circunstâncias

  • “Meus Poemas Preferidos”, Editora Tecnoprint S.A. (Ediouro Grupo Coquetel), Rio de Janeiro.
  • Murilo Mendes

– “Mais te amo,ó poesia, Quando a realidade transcendes,Em pânico, desvairando,Na voz de um Murilo Mendes ”.- (Idem, página 112)

  • Eunice Veiga

– “Eunice meiga,Eunice linda…Que mais ainda? Eunice Veiga!”- (Idem, página 112)

  • João Condé

– “Se as cores perder o João Condé, Dê-se ao decorado uma condecoração: Assim, do pé para a mão, Ficará Condé corado”.- (Idem página 113)

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Outros

Poema tirado de uma notícia de jornal

– “João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro.Bebeu.Cantou. Dançou. Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado”.

“Libertinagem”

Palavras do Autor

  • Prefácio de “Meus Poemas Preferidos”, Editora Tecnoprint S.A. (Ediouro Grupo Coquetel), Rio de Janeiro

– “Quando caí doente em 1904, fiquei certo de morrer dentro de pouco tempo:a tuberculose era ainda mal que não perdoa.Mas fui vivendo, morre-não-morre, e em 1914 o Dr. Bodner, médico-chefe do sanatório de Clavadel, tendo-lhe perguntado quantos anos de vida me restariam, respondeu-me sorrindo: O Sr. Tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida; no entato está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta, em suma, nenhum sintoma alarmante.Pode viver cinco, dez, quinze anos…Quem poderá dizer?…”- (Primeiro parágrafo).- “Pertenço à fase heroica da tuberculose. Foi através dela que construí minha poesia. Não fiz versos por ser poeta”.-Jornal O Estado de São Paulo, outubro de 1968

Atribuições

  • “Eu gosto de delicadeza. Seja nos gestos, nas palavras, nas ações, no jeito de olhar, no dia-a-dia e até no que não é dito com palavras, mas fica no ar…” – [carece de fontes]- Atribuído a Manuel Bandeira em suposto diálogo com o deputado Ulysses Guimarães. Este teria obtido esta resposta após ter exclamado “—Sua inspiração mestre divino!…”Citado por Ulysses Guimarães durante entrevista no programa de Jô Soares (Jô Soares Onze e Meia, 21 de setembro de 1992).[1]

Referências

  • “…Inspiração coisa nenhuma. Precisa ter inspiração pra atravessar a rua, senão você morre atropelado.”
  • “Ternura é aquele afeto brando, que no amor nos leva a dar mais do que receber.” [carece de fontes]
  1. (23:30 h em 21/09/1992). Jô Soares Onze e Meia [programa de entrevistas]. Brasil: SBT. (em português) Evento ocorre em ca. 4 min. após início do diálogo (1º bloco).

 

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de1886Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

Considera-se que Bandeira faça parte da geração de 1922 da literatura moderna brasileira, sendo seu poema Os Sapos o abre-alas da Semana de Arte Moderna de 1922. Juntamente com escritores como João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre, Clarice Lispector e Joaquim Nabuco, entre outros, representa o melhor da produção literária do estado de Pernambuco.

Manuel Bandeira
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Nome completo Manuel Carneiro de Souza Bandeira
Nascimento 19 de abril de 1886
Recife,  Pernambuco
Morte 13 de outubro de 1968 (82 anos)
Rio de Janeiro, GB
Nacionalidade  brasileiro
Ocupação Poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor

Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

Texto extraído do livro “Bandeira a Vida Inteira”, Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90
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